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ConteúdosCorpo e autolesão

Quero Parar de Me Cortar: Quando a Dor no Corpo Pede para Ser Traduzida em Palavras

O corte oferece um alívio breve para uma dor que não encontra nome. Por que isso acontece e como a análise interrompe esse ciclo.

Raphael Bispo · Psicanalista4 min de leitura

O impulso de se machucar costuma vir acompanhado de uma sobrecarga emocional tão avassaladora que parece não caber dentro do peito. Para quem recorre aos cortes na pele, o ato raramente tem a ver com "chamar atenção", como o senso comum costuma julgar com superficialidade. Na maioria esmagadora das vezes, trata-se de uma tentativa desesperada de alívio imediato contra uma angústia psíquica que transbordou.

Logo após o alívio passageiro do corte, no entanto, instala-se um ciclo doloroso: a vergonha das marcas, o medo constante de ser descoberto pela família ou amigos, as roupas de mangas compridas no calor e a culpa por não conseguir interromper o comportamento sozinho.

A psicanálise propõe mudar a forma como essa dor é escutada. Em vez de punir ou recriminar o ferimento, a escuta clínica investiga: o que o corpo está precisando gritar porque a voz ainda não encontrou palavras para dizer?

Por que o corte vira alívio? A dor física contra a dor psíquica

Para acolher a automutilação sem julgamentos, é preciso entender a função que o ferimento cumpre no momento da crise:

  • Concretizar o abstrato: uma angústia difusa, sufocante e sem nome ganha um ponto visível e delimitado na pele. A dor física é mais fácil de localizar e suportar do que um vazio interior que parece não ter fim.
  • Anestesia do sofrimento mental: o organismo, ao registrar uma lesão na pele, libera endorfinas que provocam uma sensação temporária de sedação e alívio do desespero.
  • Punição contra a culpa: sentimentos de inadequação, raiva reprimida contra situações do cotidiano ou sensação de não merecimento que se voltam contra o próprio corpo.
  • Reconectar-se com a realidade: em momentos em que a pessoa se sente anestesiada ou desligada do mundo ao redor, a dor física funciona como um choque para trazê-la de volta ao presente.

O grande problema é que esse alívio dura poucos minutos, mas deixa cicatrizes e uma sensação de isolamento cada vez mais profunda.

Como a psicanálise atua na interrupção do ciclo

O trabalho psicanalítico não se baseia em fiscalizar o corpo do paciente nem em cobranças inquisitórias. A psicanálise atua devolvendo à palavra o poder de aliviar a dor:

  • Transformar a lesão em fala: o analista oferece uma escuta que suporta ouvir sobre a raiva, a tristeza, o desamparo e as frustrações sem se assustar. Aquilo que antes era marcado na carne passa a ser elaborado no discurso.
  • Identificar o que antecede o ato: mapear com precisão os momentos em que a urgência de se cortar aparece. O que aconteceu antes? Uma discussão? Uma sensação de rejeição? Um silêncio em família?
  • Construção de defesas próprias: desenvolver a capacidade de reconhecer a onda de angústia antes que ela atinja o pico, criando novos recursos para atravessar o momento (como a escrita, a expressão gráfica, o diálogo ou pausas respiratórias) até que a urgência diminua.
  • Reconciliação consigo mesmo: cuidar das raízes da culpa e da autocrítica corrosiva, resgatando o afeto e o respeito pelo próprio corpo.

O papel da rede de cuidado: quando buscar ajuda médica

Embora a psicoterapia seja o espaço contínuo para tratar as causas do sofrimento, em situações de vulnerabilidade física a integração com a medicina traz segurança:

  • Avaliação de apoio: caso a angústia venha acompanhada de sintomas graves de depressão, insônia paralisante ou desespero agudo em que a pessoa sinta que perdeu o controle, a avaliação com um médico psiquiatra funciona como uma rede de proteção importante. A medicação pontual pode ser usada para baixar a intensidade da crise e preservar a integridade física do paciente.
  • Acolhimento familiar: quando se trata de jovens e adolescentes, a escuta também acolhe a angústia dos pais, orientando a família sobre como oferecer suporte sem cobranças punitivas.

Apoio imediato para momentos de urgência

Se você está lendo este texto em um momento de desespero e sente que não vai conseguir segurar o impulso:

  • Não fique sozinho: envie uma mensagem para uma pessoa próxima de confiança dizendo apenas: "Preciso de companhia, não estou me sentindo bem hoje".
  • Ligue gratuitamente para o CVV (Centro de Valorização da Vida): disque 188 (ligação gratuita em todo o Brasil, 24 horas por dia) para conversar anonimamente com alguém preparado para acolher a sua dor.
  • Adie por 15 minutos: o pico neuroquímico da impulsividade costuma durar cerca de 10 a 20 minutos. Lave o rosto com água gelada, mude de cômodo e dê a si mesmo esse intervalo de tempo antes de tomar qualquer atitude.

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